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| Kil de Freitas, Júnior Menezes e Samires Ulisses | Foto: Reprodução |
O ano político de 2025 em União dos Palmares passou longe de ser marcado por grandes entregas legislativas. O que se viu, com frequência quase constrangedora, foi um Parlamento municipal mais ativo nas redes sociais do que no plenário, produzindo discursos inflamados, reclamações recorrentes e muito pouco resultado concreto. Um cenário de “mimimi institucionalizado”, como classificam até aliados nos bastidores, que expõe a fragilidade de um Legislativo acomodado e funcional ao Executivo.
Hoje, falar em oposição formal no município é quase um exercício de retórica. A gestão do prefeito Júnior Menezes conseguiu o que poucos conseguem: dissolver a oposição clássica não pelo embate de ideias, mas pela absorção política. O movimento mais simbólico foi a aproximação — e posterior incorporação — do vereador Ricardo Praxedes, até então o único parlamentar com postura crítica consistente e voz ativa contra a administração. Após a vitória de Menezes, Praxedes atravessou o balcão do plenário e passou a integrar o time da situação. Os outros 14 vereadores, vale lembrar, já orbitavam a gestão desde antes, velhos conhecidos, “amigos de outros carnavais”.
Mas a política raramente aceita vácuos. E é justamente aí que a engenharia de poder de Júnior Menezes começa a produzir efeitos colaterais. Quanto mais a gestão se aproxima do que restava de oposição, mais cria, paradoxalmente, uma nova frente crítica — silenciosa, difusa, mas potencialmente mais perigosa.
É impossível analisar o atual governo municipal sem tocar no fator decisivo que garantiu sua vitória nas urnas. Júnior Menezes, isoladamente, não reunia capital político suficiente para vencer a eleição passada. O peso determinante veio do chamado “padrinho político”: o ex-prefeito Kil de Freitas. Foi ele quem abriu espaço, deu visibilidade, estruturou alianças e pavimentou o caminho para a ascensão de Menezes. Durante a campanha, o então candidato fez questão de reforçar esse vínculo, exaltando inclusive a figura de seu pai, Iran Menezes, como personagem central do desenvolvimento do município — uma narrativa que encontra resistência nos registros históricos e nos corredores pouco iluminados do Palácio Zumbi dos Palmares.
O problema é que, passado o período eleitoral, a gratidão parece ter prazo de validade curto. Nos bastidores, a conversa é direta: Júnior Menezes estaria promovendo uma “limpa” administrativa, removendo ou esvaziando qualquer nome que mantenha vínculo político ou simbólico com Kil de Freitas. Secretários foram exonerados, aliados perderam espaço e aqueles que ainda permanecem o fazem sem poder de decisão, reduzidos a figuras decorativas. A ingratidão, nesse contexto, deixa de ser apenas um traço moral e passa a ser uma estratégia política.
A vice-prefeita Samires Ulisses talvez seja o exemplo mais emblemático desse esvaziamento. Mantida no cargo por força institucional, sua atuação é praticamente invisível. Não há pautas relevantes, protagonismo político ou influência perceptível na condução do governo. O contraste é evidente quando comparado ao espaço ocupado pela primeira-dama, Alane Menezes, que assumiu papel ativo, apresenta propostas, participa de agendas estratégicas e se consolida como um dos rostos mais visíveis da gestão. Na prática, qualquer sombra de influência que a vice pudesse exercer foi apagada.
O movimento se completa quando o prefeito, após ter prometido “apoio total” a Kil de Freitas, retira do ex-gestor a pasta que lhe havia sido concedida e passa a construir palanque para outros nomes cotados a deputado estadual e federal. Kil, que chegou a sonhar com a retribuição de apoio, vê-se isolado politicamente, vítima de uma lógica que transforma antigos aliados em obstáculos a serem removidos.
Ao tentar apagar Kil de Freitas da narrativa administrativa e política de União dos Palmares, Júnior Menezes pode estar cometendo seu erro estratégico mais grave. A gestão parece não perceber que, ao silenciar aliados históricos e centralizar poder em um núcleo familiar — já que boa parte dos assessores e secretários possui laços diretos com o prefeito —, cria-se uma oposição mutável, menos visível, porém muito mais robusta do que aquela enfrentada no passado com o apoio do grupo Freitas.
Na política, o poder raramente tolera o esquecimento forçado. E, muitas vezes, é justamente da tentativa de apagar o passado que nasce a oposição mais perigosa: aquela que não grita no plenário, mas se organiza fora dele.
